Gemini Generated Image kskramkskramkskr
Escultura amarela com a palavra "will" em escritório moderno e iluminado do Will Bank, com móveis modulares e plantas.

A ascensão e queda do Will Bank: De fintech promissora à liquidação extrajudicial

Em menos de uma década, o Will Bank percorreu um caminho que poucas instituições financeiras brasileiras conseguiram trilhar — e caiu de forma igualmente rara. Fundado no Espírito Santo, o banco digital saiu do zero, alcançou mais de 9 milhões de clientes, tornou-se uma potência no Nordeste e terminou em liquidação extrajudicial, deixando milhões de correntistas com contas bloqueadas e um rombo potencial de até R$ 8 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Entender essa trajetória é essencial para compreender os riscos do sistema financeiro moderno e os limites do crescimento acelerado.

Cartão amarelo vibrante do Will Bank com logo Mastercard, chip e símbolo de pagamento por aproximação.
A ascensão e queda do Will Bank – Imagem: Divulgação/Will Bank

O nascimento do “Meu Pag!” e a aposta na base da pirâmide

A história começa em 2017, quando o Grupo Avista lançou a fintech “Meu Pag!”, com foco em cartão de crédito sem anuidade para a população de baixa renda. A tese era clara: atender brasileiros ignorados pelos grandes bancos, especialmente fora das capitais e no interior do país, onde o acesso ao crédito e a serviços bancários ainda era limitado.

Fundado por Giovanni Piana, Walter Piana e Felipe Felix, o projeto apostou em tecnologia leve, custos operacionais reduzidos e parcerias estratégicas, como a Matera, para viabilizar uma conta digital simples, funcional e acessível. O aplicativo oferecia conta, transferências, recargas e crédito básico, resolvendo problemas cotidianos de quem vivia à margem do sistema bancário tradicional.

Validação no interior e a virada estratégica

Entre 2018 e 2019, o “pag!” validou seu modelo no interior do Brasil. O crescimento foi consistente, mas havia um limite claro: a marca era percebida apenas como um meio de pagamento, não como uma instituição financeira completa.

A virada veio em 2020, com a pandemia. A digitalização forçada da economia acelerou o uso de bancos digitais e abriu espaço para uma transformação profunda. Nascia ali o Will Bank.

Will Bank: identidade forte e inclusão financeira real

A fintech se reinventou como banco digital, ganhou nova identidade visual, linguagem popular e um marketing fortemente regionalizado. O personagem “Will” humanizou a marca e ajudou a criar conexão com o público. O PIX tornou-se uma ferramenta central não apenas de pagamentos, mas também de educação financeira, especialmente no Nordeste e em cidades pequenas.

O crescimento foi explosivo. Em 2020, o Will Bank avançou 338%, registrou lucro de R$ 14,9 milhões e ultrapassou 2 milhões de correntistas. Cerca de 60% da base estava no Nordeste, majoritariamente fora dos grandes centros urbanos.

Consolidação nacional e reconhecimento

Nos anos seguintes, o Will se consolidou como um banco regional com escala nacional. A base ultrapassou 5 milhões de contas, o volume transacionado no cartão superou R$ 13 bilhões por ano e a marca virou referência em inclusão financeira fora do eixo Rio-São Paulo. O modelo parecia sustentável, com crescimento orgânico e forte aderência ao público.

A compra pelo Banco Master e o início do colapso

Em 2024, a trajetória mudou radicalmente. O Banco Master, liderado por Daniel Vorcaro, adquiriu o controle do Will Bank. A fintech passou a integrar um conglomerado com funding agressivo e estratégia de cross-selling de produtos de maior margem, como crédito consignado.

Pouco depois, surgiram os primeiros sinais de estresse financeiro. O grupo passou a oferecer CDBs com taxas muito acima do mercado, o que acendeu alertas entre analistas. A leitura predominante era de uma busca desesperada por liquidez, levantando dúvidas sobre a solvência do conglomerado.

Intervenção do Banco Central e o fim do Will Bank

Em novembro de 2025, o Banco Central liquidou o Banco Master por insolvência. O Will Bank não foi liquidado imediatamente e entrou em Regime de Administração Especial Temporária (RAET), enquanto o regulador tentava preservar o ativo e encontrar um comprador.

A tentativa fracassou. Em janeiro de 2026, a Mastercard bloqueou o Will Bank por inadimplência no arranjo de pagamentos, fazendo com que os cartões simplesmente parassem de funcionar. No dia 21 de janeiro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco.

Um legado ambíguo e um alerta ao sistema financeiro

O legado do Will Bank é duplo. De um lado, provou que inclusão financeira funciona fora do eixo Rio-São Paulo e que há enorme demanda reprimida no interior do Brasil. De outro, mostrou como um ativo saudável pode ser destruído por um controlador insolvente, gerando perdas bilionárias, impacto sistêmico e prejuízos para milhões de clientes.

A história do Will Bank entra para o mercado financeiro brasileiro como um alerta duro sobre governança, funding irresponsável e os riscos de crescimento sem sustentabilidade.

COMPARTILHE